A economia do like transforma consumo em exibição pública. Compramos menos por necessidade e mais para demonstrar valor social, pertencimento e sucesso em plataformas digitais.

Por Naskar
Publicado em 04/11/2025

O consumo deixou de ser apenas uma resposta a necessidades ou desejos pessoais e passou a ocupar um papel central na construção de identidade e reputação digital. A validação social se tornou uma variável econômica. Nesse cenário, o valor simbólico de um produto frequentemente pesa mais do que seu valor utilitário.

O Consumo como Performance Social

Nas redes sociais, mostrar importa tanto quanto ter. Fotografar o prato no restaurante, exibir a viagem, o carro, o tênis ou o ambiente de trabalho virou uma forma de comunicação. Cada imagem conta uma história, não apenas sobre o que possuímos, mas sobre quem esperamos ser percebidos como.

Esse comportamento é reforçado por plataformas que premiam conteúdo visualmente atraente. O consumo, assim, assume caráter performático: documentar tornou-se quase tão relevante quanto experienciar.

De Veblen à Era Digital

O conceito de “consumo conspícuo”, formulado por Thorstein Veblen, já explicava a busca por status por meio de bens. A diferença contemporânea está na escala e na velocidade. Redes sociais expandiram o alcance dessa lógica, tornando possível — e esperado — exibir conquistas para audiências amplas, muitas vezes compostas por pessoas que sequer conhecemos.

Além disso, o crédito facilitado e a cultura parcelada permitem participar desse jogo simbólico sem necessariamente possuir recursos para tal, o que pode gerar ciclos de endividamento.

A Busca por Pertencimento e Validação

Não se trata apenas de ostentar. Em muitos casos, o consumo funciona como ferramenta para sentir-se parte de um grupo. Um tênis específico, uma marca de café, um estilo de decoração ou uma experiência de viagem funcionam como “senhas culturais”.

A validação digital — curtidas, comentários, compartilhamentos — reforça esse comportamento. Ser visto e aprovado se mistura com autoestima, criando um estímulo psicológico poderoso e contínuo.

Produtos para Serem Postados

A indústria percebeu essa dinâmica e responde a ela. Hotéis projetam espaços para fotos, restaurantes pensam em pratos fotogênicos, lojas criam ambientes “instagramáveis”. Em muitos casos, o design da experiência visa antes o registro do que o uso.

O produto não é apenas o objeto; é o conteúdo que ele pode gerar.

Autonomia ou Algoritmo?

A questão central é até que ponto escolhemos livremente nossos desejos. Quando buscamos reconhecimento externo, podemos confundir aquilo que realmente queremos com aquilo que acreditamos que deveríamos querer para sermos aceitos.

Essa dinâmica gera um paradoxo: mais exposição, mais comparação; mais consumo, mais necessidade de validação.

Repensando o Valor

Refletir sobre esse fenômeno não exige abandonar redes sociais ou estética, mas analisar motivações. Perguntar-se por que se compra algo — pela experiência ou pela imagem projetada — pode ajudar a construir decisões financeiras mais conscientes e emoções menos dependentes de aprovação externa.

No fim, a questão permanece: buscamos viver bem ou apenas parecer que vivemos bem? A diferença pode determinar se o consumo será uma ferramenta de liberdade ou de pressão contínua.

>