O universo dos NFTs avançou rápido demais para caber apenas na narrativa da arte digital. Uma vez que o hype inicial se dissipou, surgiu uma segunda camada — menos espetaculosa, mais silenciosa — em que esses tokens passam a desempenhar funções tipicamente bancárias. O que antes era um JPEG caro agora pode ser usado como colateral para empréstimos, destravando liquidez onde antes só havia especulação.
De arte especulativa a ativo empenhável
Quando um NFT é aceito como garantia, ele deixa de ser apenas um item colecionável e passa a se comportar como um ativo financeiro. Plataformas de empréstimo descentralizado avaliam raridade, histórico de transações e até engajamento cultural do token para definir quanto crédito liberar. A lógica lembra o mercado de penhores, mas sem balcão físico, sem chaveiro barulhento e sem limite geográfico.
A novidade é que esses ativos têm preço volátil, o que exige algoritmos capazes de estimar risco quase em tempo real. Empréstimos podem ser liquidados automaticamente se o valor do NFT cair demais, criando uma dinâmica financeira própria, altamente sensível a movimentos especulativos.
O risco escondido na volatilidade digital
Ao contrário de um imóvel, que é difícil de desvalorizar da noite para o dia, um NFT pode perder grande parte de seu valor em poucas horas. Isso cria um ambiente em que:
- Liquidações automáticas podem disparar em cascata.
- Empréstimos superalavancados tornam-se tentadores e perigosos.
- Avaliações de mercado dependem mais de narrativas culturais do que de fundamentos econômicos.
É um sistema eficiente, mas frágil. A liquidez existe — até não existir mais.
A promessa de um novo sistema de crédito digital
Mesmo com seus riscos, a ideia de usar NFTs como colateral abre portas para modelos de crédito mais flexíveis. Empreendedores digitais podem emprestar contra sua propriedade intelectual tokenizada. Criadores podem financiar novos projetos usando obras anteriores como garantia. E colecionadores transformam ativos imobilizados em capital circulante.
Se o setor amadurecer, veremos o nascimento de um mercado de crédito nativo da internet, no qual a confiança é programável e a garantia, puramente digital.
O desafio, como sempre, será separar a inovação real do entusiasmo exagerado — e descobrir se esses novos colaterais sobreviverão quando a próxima onda de volatilidade chegar.

